Sinto um desejo monstruoso de escrever. Tiro o relógio para não prender o pulso e conter impulso claustrofóbico – é como se o invento de Dummont reprimisse as letras que circulam pelas veias. Uma revista de literatura, um aniversário antropófago me inspiram a ousar, mas hesito. A tarde é de sexta e é paradoxo – lá fora sol, dentro o mofo e a melancolia herdados de chuva recente. A casa em silêncio me expulsa aos gritos: baratas prestes a derrubar as paredes, paredes com muito mais braços que ouvidos, móveis com madeira e cheiro podres, chão, teto, e todos os cômodos a me enxotar do lugar para onde volto desde os quatro anos. A insegurança material (p)rende e cala. Olho para o quintal e sinto vontade de voltar às bonecas, panelinhas, comidinhas feitas de terra e mato. Vontade de voltar ao balanço no quintal da vizinha no qual me demorava, sem noção de tempo, sem noção alguma. Vontade de uma tarde, uma rede e quadrinhos da Turma da Mônica. Vontade de um tatu chamado Vítor, uma gata chamada Dalva e um sofá estampado – personagens de um livro tão lido nesse tempo. Vontade de minha casa original, com grama, muro, espirradeira, janelas... Agora há um forro a ensurdecer a música da chuva, minha canção de ninar nas noites de inverno. Forro que transforma o quarto em solitária, onde só entram o mofo e uma luz fraca, artificial. Não mais se formam figuras no telhado a convocar que eu as desvende, e logo o sono vem. No lugar da grama, de hibiscos, papoulas, nove-horas e dinheirinho, há um chão frio de cimento e a estrutura faz com que chova mais dentro do que fora da casa, diluviando e tornando tudo mais frio e deprimente. O monte de tralhas e bregueços amontoados ao lado da casa é apenas o retrato de um presente cinza e embolorado. Lembro agora da música cantada por Caetano Veloso:
“Felicidade foi embora e a saudade no meu peito inda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque eu sei que a falsidade não vigora.
A minha casa fica lá detrás do mundo,
Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar.
O pensamento parece uma coisa à toa,
Mas como é que a gente voa quando começa a pensar?
Felicidade foi embora e a saudade no meu peito inda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque eu sei que a falsidade não vigora”.
Não é sem lágrimas que ouço essa música. A “saudade no meu peito” não é de outra casa, e ao mesmo tempo é. Outra casa em que morava a felicidade e não vigorava o ódio ou o rancor. Uma casa lá detrás do mundo – acessível agora somente pelo pensamento, essa coisa à toa que faz com que eu voe quando começo a cantar. Não há mais nenhum lugar nessa casa que me traga o mínimo de deleite. Quero voltar à minha casa, ao quintal, às viagens intergalácticas que fazia em cada brincadeira. Quero voltar às adivinhas, às casinhas, às “mãe-e-filha”. “É por isso que eu gosto lá de fora”, fora dessas paredes frias caindo aos pedaços, dessa gélida ausência de tudo que me fez feliz um dia e que hoje é intangível.
