sexta-feira, 23 de maio de 2008

Capil


A noite de sexta-feira é o único momento em que posso tentar desacelerar o pensamento, materializando algumas idéias nesta simplória e quase desconhecida página. Na verdade, a frente do computador não é dos melhores lugares para isso!

A semana foi tão corrida que, graças a Deus, não tive tempo para considerar meus dilemas existenciais. Na segunda-feira, tomei vergonha e voltei para a musculação. O aparelho emagrece e aborrece - já perdi três quilos nessa brincadeira.


Algo me aconteceu que não posso deixar de registrar aqui. Nessa mesma segunda-feira, por pura teimosia, cortei o cabelo mais uma vez. Não ficou do jeito que eu queria e isso me deixou futilmente arrasada. Estava envergonhada, sem coragem de sair de casa, receosa do vexame que passaria se transitasse por aí com essa aberração capilar. Diante de tanta frescura, Deus, cuja sabedoria nunca vai deixar de me instigar, me mandou um recado de que nunca vou esquecer. Na terça-feira, enquanto aguardava ser atendida pelo dentista, entrou uma senhora, conhecida minha há algum tempo e que, recentemente, teve câncer. Por conta da doença, o cabelo dela havia caído e, quando a vi, havia apenas alguns fios surgindo. Seu couro cabeludo ainda estava completamente à mostra, e ela não procurava esconder usando lenços ou peruca, como fazem algumas mulheres vítimas desse mal. Aquela cena, mesmo muda, me deu a lição de que eu estava precisando. Eu, cheia de saúde, lastimando por um cabelo que vai voltar ao normal daqui a alguns meses, seguindo o processo natural do organismo, enquanto aquela mulher, que perdeu TODO o cabelo por causa de um câncer, não parecia ter vergonha de sair de casa expondo sua condição. Só pude agradecer a Deus por me mostrar quão fútil eu estava sendo, e por me conservar viva, mesmo sendo eu tão vil e miserável.

No feriado de quinta-feira, encerramos na escola o projeto TV Turnoff Week. Foi fantástico! Quando planejei, não tinha imaginado que poderia ser tão produtivo. Recebi muitos elogios dos pais e pude ver o esforço real dos meninos, lutando para não assistir TV e não usar o computador. Os vencedores - menos da metade de todos os alunos do Fundamental II - ganharam um passeio para uma fazenda aqui perto, com banho de piscina, brincadeiras etc. Foi bastante satisfatório! Espero repetir no próximo semestre, com outra temática; a leitura, quem sabe.

Quero parar de agir como cristã só quando chega o sábado. Tenho vivido praticamente como duas personalidades. Isso é ruim! É como se, durante a semana, eu esquecesse de tudo que ouvi, li, refleti aos sábados. Preciso parar com isso. Isso não me faz bem.

Não tenho nada mais a dizer. Não quero levá-los a ler as outras bobagens que povoam meus pensamentos. Deixo somente meu abraço.
Até logo,
S.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Dieta

É sexta-feira e, como sempre, o dia voou. Não fui para o ensaio por não estar me sentindo bem, em vários aspectos. Talvez o cansaço ou a fome intensa - por conta do aparelho ortodôntico, não consigo mastigar e tenho enganado meu organismo, nos últimos dias, com apenas líquidos. É uma verdadeira tortura para uma fagófila como eu. Comer, para mim, é o que há de mais lúdico, e essa privação tem me deixado bastante irritável, como se diz, stressada. Como tudo tem seu lado bom, nos momentos em que o metal é mais desconfortável, tento pensar que isso tudo vai me fazer emagrecer um pouco: uma ajuda.

Por não ter ido ao ensaio, tive tempo para descansar na frente do computador. Estava, e ainda estou, tão cansada e faminta, que cheguei a ficar tonta e ter vertigens. Sinceramente, não sei quando vou poder comer como antes, e isso me angustia.

No final do dia, um lenitivo: momentos à toa com amigos. Amigos... ultimamente, tenho considerado muito sobre essa palavra. Nada de decepções, nada de novo. Mas minha ingenuidade é tanta que o ser humano ainda consegue me surpreender. Porei em prática a decisão de não mais estar onde minha presença não é querida. Certamente, sentirei falta de algumas coisas, mas será melhor, sei que sim.

Ando cheia de dúvidas sobre que decisões tomar, em várias áreas da vida. Embora clichê, fiz o melhor que posso: entreguei nas mãos de Quem sabe o que fazer. Sei que Ele jamais me deixará na mão. Ainda bem que Deus não é vingativo... se Ele resolvesse me tratar da mesma forma que O trato, não sei o que seria de mim.

A partir desse restante de noite e amanhã, espero usufruir de todo o deleite que o Santo Sábado me oferece, e esquecer todas as preocupações.

Abraços

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Atemporal

Queridos,
Ando extremamente ocupada... o trabalho e a faculdade têm se apossado de todo o meu tempo, e quase não tenho me detido em materializar minhas idéias e compartilhá-las com vocês aqui. Mas não reclamo! Dou graças a Deus por ter tais ocupações e confesso: só produzo alguma coisa quando sob pressão. Sim! Na ociosidade, sou quase um vegetal.
Escrevi um texto, no período do Natal, aproveitando toda a melancolia que sempre me toma nessa cintilante época. Divido o desabafo com vocês. O momento não tem a ver com o tema do texto, mas peço que interpretem essa desconexão como reflexo da minha falta de tempo e me perdoem. Obrigada! Sandy

Todos nos sentimos tentados a falar sobre as festas de Natal e réveillon quando chega dezembro. Talvez seja porque, desde que nos entendemos gente, fomos ensinados a esperar algo de bom dessas datas: esperar Papai Noel, esperar a chegada do ano novo. A maioria cria enorme expectativa para a última semana do mês, sustentada pela criatividade de ávidos publicitários e comerciantes, sempre os maiores interessados na perpetuação das tradições – quanto mais pessoas imbuídas do “espírito” natalino, melhor, pois coração amolecido é sinônimo, entre outras coisas, de mais dinheiro gasto.

A preocupação reinante é quanto à roupa, a ceia, a viagem, os presentes – impera o interesse material, disfarçado com belos discursos sobre amor, fraternidade e perdão. Prova disso é que as promessas de mudança que sempre fazemos, mesmo involuntariamente, mal chegam ao fim de janeiro. Que contraste com as prestações, das quais levamos quase um ano para nos livrar!

Chega, enfim, o tão aguardado dia 31 com seus champanhes, fogos e abraços. Ah! Os abraços... Para alguns a empolgação é tanta que abraçariam até Hitler se esse aparecesse em sua frente, quanto mais aquele colega de trabalho insuportável com quem pouco se falou durante o ano. E por falar em trabalho, que dizer das confraternizações de fim de ano da empresa? Na hora de revelar o amigo-oculto, não existe mais ninguém que seja chato ou difícil de lidar: todos são maravilhosos. Lindos, como diria Caetano.

Mas, tal qual conhecido conto de fadas, após a meia-noite o encanto acaba junto com a pólvora dos fogos de artifício. Você volta para casa, onde resta apenas colocar o velho pijama, os velhos chinelos, limpar a maquiagem e se preparar para encarar mais um ano. No outro dia, cada um volta a seu borralho particular – ressaca para curar, louça para lavar, calorias para queimar.

Janeiro vai escorrendo de nossas mãos e aos poucos alguém percebe que não fez diferença se usou vermelho, preto ou branco no réveillon: a paixão, o luto ou a paz estão aí para serem semeados e colhidos. Esperamos ansiosamente pelo novo ano para “agir diferente”, mas resolvemos fazê-lo somente quando chega o Natal. Economizamos abraços e elogios sinceros, desperdiçando os outros dias – trezentas e tantas chances de conseguir o que queremos de Deus, do Papai Noel ou de nós mesmos. “Não andem ansiosos... Basta a cada dia o seu próprio mal”, disse certa vez o Personagem principal do 25 de dezembro. De nada vai adiantar sonharmos com o futuro se não aproveitarmos o presente, um dia de cada vez.


sábado, 5 de abril de 2008

Felicidade foi embora

Sinto um desejo monstruoso de escrever. Tiro o relógio para não prender o pulso e conter impulso claustrofóbico – é como se o invento de Dummont reprimisse as letras que circulam pelas veias. Uma revista de literatura, um aniversário antropófago me inspiram a ousar, mas hesito. A tarde é de sexta e é paradoxo – lá fora sol, dentro o mofo e a melancolia herdados de chuva recente. A casa em silêncio me expulsa aos gritos: baratas prestes a derrubar as paredes, paredes com muito mais braços que ouvidos, móveis com madeira e cheiro podres, chão, teto, e todos os cômodos a me enxotar do lugar para onde volto desde os quatro anos. A insegurança material (p)rende e cala. Olho para o quintal e sinto vontade de voltar às bonecas, panelinhas, comidinhas feitas de terra e mato. Vontade de voltar ao balanço no quintal da vizinha no qual me demorava, sem noção de tempo, sem noção alguma. Vontade de uma tarde, uma rede e quadrinhos da Turma da Mônica. Vontade de um tatu chamado Vítor, uma gata chamada Dalva e um sofá estampado – personagens de um livro tão lido nesse tempo. Vontade de minha casa original, com grama, muro, espirradeira, janelas... Agora há um forro a ensurdecer a música da chuva, minha canção de ninar nas noites de inverno. Forro que transforma o quarto em solitária, onde só entram o mofo e uma luz fraca, artificial. Não mais se formam figuras no telhado a convocar que eu as desvende, e logo o sono vem. No lugar da grama, de hibiscos, papoulas, nove-horas e dinheirinho, há um chão frio de cimento e a estrutura faz com que chova mais dentro do que fora da casa, diluviando e tornando tudo mais frio e deprimente. O monte de tralhas e bregueços amontoados ao lado da casa é apenas o retrato de um presente cinza e embolorado. Lembro agora da música cantada por Caetano Veloso:

“Felicidade foi embora e a saudade no meu peito inda mora

E é por isso que eu gosto lá de fora

Porque eu sei que a falsidade não vigora.

A minha casa fica lá detrás do mundo,

Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar.

O pensamento parece uma coisa à toa,

Mas como é que a gente voa quando começa a pensar?

Felicidade foi embora e a saudade no meu peito inda mora

E é por isso que eu gosto lá de fora

Porque eu sei que a falsidade não vigora”.

Não é sem lágrimas que ouço essa música. A “saudade no meu peito” não é de outra casa, e ao mesmo tempo é. Outra casa em que morava a felicidade e não vigorava o ódio ou o rancor. Uma casa lá detrás do mundo – acessível agora somente pelo pensamento, essa coisa à toa que faz com que eu voe quando começo a cantar. Não há mais nenhum lugar nessa casa que me traga o mínimo de deleite. Quero voltar à minha casa, ao quintal, às viagens intergalácticas que fazia em cada brincadeira. Quero voltar às adivinhas, às casinhas, às “mãe-e-filha”. “É por isso que eu gosto lá de fora”, fora dessas paredes frias caindo aos pedaços, dessa gélida ausência de tudo que me fez feliz um dia e que hoje é intangível.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Represa

Tentarei fazer aqui o que não consegui há poucas horas atrás, em mais uma sessão de análise: pôr para fora o que tenho há tanto tempo reprimido. Desde que me entendo gente, me empenho para que ninguém perceba o que se passa no meu fantástico mundo interior. Nem ao menos consigo olhar nos olhos de alguém por mais que alguns segundos, temendo sempre que adentrem meu universo através das portas traiçoeiras, portas que, temo eu, revelam aquilo que procuro ocultar com tanto esforço. O exercício de rasgar revistas como meio de extravasar a raiva foi frustrado: se senti realmente raiva, não consegui definir do quê, e falar se tornava um penoso desafio. Ora, eu que passei a vida empurrando o lixo para debaixo da cama e, assim, construindo uma cidade fortificada contra qualquer invasão, de repente ter que abrir os enferrujados portões e deixar sair os prisioneiros de mim mesma, foi um grande desafio que não consegui cumprir. A clássica interrogação “Como está se sentindo?” teve resposta desanimadora; foram muitas páginas rasgadas para poucas palavras e quase nenhuma nesga de raiva ou qualquer outro sentimento postos para fora. Não sei que tipo de método será preciso utilizar para que eu consiga revelar o que insisto em esconder. Tenho consciência de que não posso mais reprimir, mas não sei como. Temo o jumanji que poderia suceder se os bichos que vivem dentro de mim saíssem em disparada, atingindo pessoas a torto e a direito. Desejos sexuais e tudo que pode descender daí – todos filhos de uma besta acorrentada pelos grilhões de um realmente Super ego. Agora entendo claramente o que Paulo quis dizer quando falava de luta interior. É humanamente impossível subjugar o que há em nós de instintivo, de animal; ele sempre estará lá, latente, tal qual um vulcão ou fera adormecida, cujas atitudes não se pode prever ou facilmente controlar. É preciso um poder sobrenatural, que transcenda nossas limitações. Somente o poder da cruz, tal qual nas histórias da Transilvânia, é capaz de garantir nossa estabilidade, inclusive a psíquica. Quando as teorias do homem não dão conta, quando os métodos são frustrados, somente o inefável – mais conhecido como fé – pode nos dar a certeza de que não iremos enlouquecer e, mais do que isso, a fé pode nos dar o melhor remédio contra a tristeza profunda e suas conseqüências: a esperança em promessas que nunca irão falhar. “Se creres, verás a glória de Deus”.

Reloaded

RELOADED

Para o bem ou para o mal, recordar é viver um pouquinho novamente. Esse é o motivo por que o homem se empenhou em criar câmeras fotográficas, filmadoras, objetos que pudessem capturar ou aprisionar a imagem de momentos marcantes. Também é o mesmo motivo pelo qual as máquinas do tempo figuram tanto em histórias de ficção: o tempo é realmente um presente, e não conheço ninguém que não daria tudo para reviver uma hora, um dia, um fim de semana.

Pessoas que perderam entes queridos gostariam de ter novamente alguns instantes na companhia destes; alguém que proferiu palavras das quais se arrepende amargamente sofre por ter desperdiçado uma chance talvez única; todos que, de modo geral, tomaram decisões incorretas, impensadas e hoje pagam por isso, certamente fariam o impossível para viajar através do tempo e reparar seus erros.

Mas não é de remorso ou arrependimento que vou falar. Quero tratar de um sentimento que não dispensa ninguém, que já foi cantado e descrito de diversas formas, que todas as pessoas do mundo já experimentaram mas que só na língua portuguesa encontramos vocábulo para representá-lo. Sim, vou falar de saudade.

Sou apaixonada por fotografias e conservo em meu quarto um mural cheio delas. Enquanto escrevo, passo o olhar por cada uma e um turbilhão de lembranças me faz sentir o desejo de transcender minhas limitações humanas e poder me encontrar novamente em cada um desses momentos – um dia de férias na casa da avó, rodeada de primos e um sorriso despreocupado e infantil. Um domingo na praia com grandes amigos. Um carnaval cheio de boas surpresas como nunca haverá igual. Um passeio romântico e inusitado a uma serra aconchegante, quebrando a monotonia de todos os domingos. Um abraço apertado, da época em que tudo era só flores. Um Natal, um aniversário, a formatura do ABC, um casamento – ecos de felicidade, somente acessíveis por meio das valiosas fotografias.

Independente da idade, todos sentimos saudade de algo bom. Um bebê deve sentir saudade da tranqüilidade da vida uterina. Um vovô à beira dos cem anos certamente deve conservar algum flash da infância ou da juventude, mesmo que a memória já seja quase toda extinta. Dos casais apaixonados, então, nem se fala. É de lei carregar uma foto na carteira ou na bolsa, para quando a distância separa e a saudade aperta.

Não diria que é sempre bom sentir saudade. Diria, sim, ser importante, fundamental para valorizar a única coisa que temos – o tempo presente. Abraçar quem amamos, expressar esse amor sem medo de possíveis decepções e, se for pra se arrepender, que seja de não ter amado. Não sou adepta de frases feitas, por isso encerro com Vinícius, de cujas canções era a saudade tema constante:

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

Se joga, pintosa!

Ele estava na cidade e ela às voltas com os textos. Escrevera dois nos últimos dias e queria outra opinião além da de sua mãe – mães são as menos indicadas quando se trata de crítica. Conversaram e ele comentou estar escrevendo algo sobre sua adolescência. Ela pediu para ler:

– Amanhã eu mostro. Você é profissional, preciso aprimorar.

– Deixa de bobagem, mostra agora. Nem vou ver você amanhã...

– Outro dia, então...

– Tudo bem, não precisa mais mostrar – gritaram seus hormônios.

– Não quer mesmo ver?

– Não – e a irmã dele a chutá-la por baixo da mesa.

Ela ensaiou em casa um pedido de desculpas. Não tolerava falta de educação, mesmo que fosse com ele. De madrugada escreveu novamente. Acordou e telefonou – seu texto pedia um julgamento. Marcaram para depois das três.

– Ontem você confundiu as coisas – ele começou com as farpas.

– Tem razão...

Ela respirou fundo para se desculpar, ele tomou a frente:

– Você tem sido muito estúpida. Acho que esse seu problema com seu pai...

– Você acha demais.

– Acho, sim. Acho também você uma criança, se sente mulher...

– Lê logo isso aí, por favor.

– Não, não quero mais ler – e fechou o computador.

– Agora é você quem está confundindo.

– Você é tão imatura, não sei como a namorei.

– ? ...

– Você não é namorada pra mim.

“Talvez por ser mulher”, pensou. E pediu:

– Me dá licença...

E retirou-se dali, ele a falar sozinho. Não lhe disse nada do que tinha vontade e se odiava por isso. Fora traída por seu sistema nervoso, abandonada na hora mais urgente.

Mais tarde, ela mais calma, se perguntou o que mais poderia esperar de um homem que faz luzes no cabelo, usa lentes coloridas e rebola o quadril melhor que ela. E foi escrever outro texto.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Empatia

Voltei há pouco da psicanálise. Detive-me tanto em falar das coisas ruins que, quando tomei fôlego para compartilhar com aquele homem sério todas as alegrias desse dia, ouvi o desanimador "Ficamos por aqui, Sandy". Não tive escolha, vim contar aqui mesmo. Minhas produções escritas estão indo de evento em popa. Poucas coisas me deixam tão feliz e satisfeita quanto escrever, e escrever livremente. Não sou muito de me orgulhar do que faço, mas ontem escrevi um que ficou muito bom, sem falsa modéstia, muito bom mesmo. Infelizmente não posso publicar aqui, e peço que não se decepcionem com a ausência de textos tão bons quanto o do post "Absolutismo" - esse está deslocado aqui no Blog - pois estou canalizando todas as minhas capacidades inventivas para as crônicas. Tenho devorado durante as madrugadas o "Inteligência Emocional", e tem sido gratificante. Hoje pus em prática o que li sobre EMPATIA e, acreditem, surtiu resultado tal que uma onda de contentamento se apoderou de mim, e parecia contagiar todos à minha volta. Pude ser útil para alguém que precisava simplesmente de que a ouvissem com a devida atenção. Falei-lhe sobre Deus, foi realmente gratificante. It's amazing the power of good lectures. Hoje também, algo completamente inusitado aconteceu - recebi flores e chocolates de um romântico anônimo (!!!!!). "A vida é muito dinâmica" - um dia recebo cobras e lagartos; no outro, gestos de carinho equivalente a pedras preciosas para minha auto-estima. Alguém lembra da história das duas irmãs que vão ao poço? Pois é... Poxa vida. Quanto ao remetente do mimo, não faço a menor idéia sobre sua identidade. O que sei é que hoje o dia realmente valeu a pena. Não por ter ganhado mas por ter sido útil para algúem, como há muito não me sentia. Esqueci de dizer que traduzi um texto para duas amigas, desenferrujando meu Latim. E, por ter sido suavemente "empática" com uma mulher aflita, recebi um "Obrigada, gostei muito do seu jeito!" que valeu mais que qualquer outro elogio já recebido na vida inteira.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Gracias

Esse post é somente para agradecer pelos gentis comentários que tenho recebido. Vocês são realmente muito educados, obrigado! Só uma pergunta: de onde vocês tiraram essa história de livro? É... se bem que, depois de uma que me aconteceu, nada mais me surpreende. Um certo dia em uma livraria famosa, passeando meu olhar por entre os mais vendidos, tive minha atenção despertada por um livro de capa preta e título paradoxal. Vencendo minha miopia, apertei os olhos e li o nome do autor: Bruna Surfistinha(??!!). Pensei: deve ser a fome! Sacudi um pouco a cabeça e tentei decifrar novamente. Engano meu, amigos. Aquela aberração era real e estava deixando suados dois rapazinhos perto de mim que devoravam trêmulos um exemplar não-lacrado d’O doce veneno do escorpião’ – assim se chamava a obra. Por pouco não contive minha repulsa: as aventuras sexuais de uma prostituta narradas sem a menor preocupação estética e ainda figurando entre os mais vendidos, era demais para uma apaixonada por livros como eu. Corri para as estantes onde jaziam esquecidos Veríssimo, Lygia, Clarice, e tantos outros, quase gritando “Socoooorrrro!”. Ingeri doses cavalares de contos, crônicas e poesia e voltei para casa. Pouco tempo depois, volto àquela livraria – maior atrativo de um shopping para uma desprovida de recursos e rica em curiosidade como eu. Mal havia me recuperado totalmente do trauma, e vejo na vitrine: “O que aprendi com Bruna Surfistinha – Lições de uma vida nada fácil”, agora assinado por Rachel Pacheco, a própria “Bruna”. Dessa vez balancei a cabeça apenas como censura e suspirei de desgosto. Outro dia, um amigo falou que havia baixado da internet o arquivo em áudio do primeiro livro. Após sentir náuseas por me imaginar ouvindo aquilo, fiquei a pensar no Brás Cubas, que não acreditava que mais de dez pessoas leriam suas Memórias Póstumas. Talvez nosso defunto-autor estaria prevendo a que ponto chegaríamos. Felizmente o número de leitores foi bem maior e hoje sua obra serve de refúgio contra disparates como Paulo Coelho, Dan Brown, Harry Potter, Brunas, escorpiões e tantos outros venenos letais à mente de qualquer pessoa. Mais uma vez, muito obrigado pelos comentários. Realmente, depois de comprovar que qualquer um pode publicar um livro, não vou mais duvidar das profecias de vocês. Deixo esse link para complementar o que escrevi:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65281.shtml

Abraços!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Cogito

Ontem pude comprovar mais uma vez a impotência do homem perante as leis da natureza, após ter sido derrubada por um jantar, uma sobremesa e alguns chocolates no domingo à noite. Por ter perdido a disputa entre meu estômago e essas três forças, o dia de ontem foi péssimo. Tive que adiar alguns compromissos por não poder sair de casa, doente. Tive ontem a última sessão de psicanálise do ano, as próximas só a partir de janeiro – ele também precisa de um descanso após passar o ano inteiro servindo de Muro das Lamentações. Após a consulta, vi a palestra sobre “Cura para traumas emocionais”, perfeita para mim. Mesmo tremendo por conta da febre, permaneci até o final. God is really wonderful, powerful, joyful, faithful. Tenho tentado ler o romance do Riobaldo, viajando naquela linguagem que só mesmo Guimarães Rosa seria capaz de criar. Cheia de dúvidas, pedi ajuda àquela mulher fantástica que sempre me ajuda com essas coisas e que estará orientando meu amigo Bergue com suas viagens ao mundo da Lygia Fagundes Telles. Incrível como tudo remete às Letras... poucas coisas me fazem tão bem quanto nossas conversas, que mesclam lingüística e literatura, entre outras paixões, e que nos fazem transcender esse universo fútil, banal e repressor em que vivemos. As perspectivas para as festas de fim de ano são as piores possíveis. Já estou preparando meu emocional para passar o réveillon de pijama, vendo o Show da Virada na Globo. Alguém me diz: “Até lá, as coisas podem mudar!”, outros convidam para passar o Natal na capital – minha última escolha. Eu realmente quero que as coisas mudem – um milagre. Mas gostaria mesmo de ganhar o presente pelo qual pedi, clamei tanto ontem. Deus sabe o quanto estou precisando... Se eu conseguir, certamente contarei aqui. Não morro de amores por canções de Natal, mas quero encerrar com essa:

I don't want a lot for Christmas
There is just one thing I need, and I
Don't care about the presents
Underneath the Christmas tree
I don't need to hang my stocking
There upon the fireplace
Santa Claus won't make me happy
With a toy on Christmas day

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
All I want for Christmas is you

I won't ask for much this Christmas
I won't even wish for snow, and I
I just want to keep on waiting
Underneath the mistletoe

I won't make a list and send it
To the North Pole for Saint Nick
I won't even stay up late
To hear those magic reindeer click

'Cuz I just want you here tonight
Holding on to me so tight
What more can I do
Oh, Baby all I want for Christmas is you

All the lights are shining
So brightly everywhere
And the sound of childrens'
Laughter fills the air

And everyone is singing
I hear those sleigh bells ringing
Santa won't you bring me
The one I really need
Won't you please bring my baby to me quickly

I don't want a lot for Christmas
This is all I'm asking for
I just want to see my baby
Standing right outside my door

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
all I want for Christmas is you, you ooh, baby

All I want for Christmas is you

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Absolutismo


O mês era março, o ano era 1989. Eu completava sete meses de vida e gozava todos os direitos da primogenitura, com todos os cuidados e atenções convergindo para mim. Como era de lei, a cada dezoito do mês era eu meticulosamente arrumada, penteada, enfeitada e levada a algum lugar, de preferência com flores, para ser enquadrada nas lentes de algum fotógrafo incumbido de registrar aquelas datas tão importantes para meus genitores – eu mesma não entendia nada e talvez até achasse um saco todo aquele ritual, como se pode constatar na minha expressão de tédio. Quase nada de cabelos, mas a mãe insistia em prender um lacinho, provavelmente para evitar a não rara confusão das pessoas, que me julgavam menino. Bochechas, braços e pernas rechonchudas de um bebê saudável como desejo que sejam os meus quando vierem, se Deus quiser. As mãos firmes na cadeirinha, trono do meu reinado absolutista, e a bicicleta, minha carruagem. Do meu lado a me fazer escolta, um casal jovem, inexperiente e cheios de sonhos para aquela criaturinha indefesa – minha mãe no auge de seus vinte e um anos, com um jeans desbotado, um tênis All Star e uma cara que só as mães sabem fazer; meu pai, aos vinte e cinco, razoáveis quilogramas a menos e alguns cabelos a mais, usava uma blusa com um de seus inúmeros desenhos polissêmicos, sendo que esse destacava sua enorme paixão por inglês e sua fixação por águias. Em seu rosto, um misto de orgulho e esperança naquela garotinha de olhos iguais aos seus. Ao fundo, o colégio em que ele dava aulas e onde vivi oito felizes anos. Não poderia ser outro o cenário: a frente do colégio, aquele jardim sempre bem cuidado e as janelas de vidro pelas quais desejei tantas vezes fugir para escapar da monotonia das aulas. Quando entrei ali, por volta dos quatro anos, chorava para ficar junto de meu pai e tinha febre emocional quando este viajava para lecionar. Lembro dele sentando comigo na calçada de casa para me ensinar a ler. Desenhava figuras e escrevia os nomes do lado; a maioria eram dissílabas e eu insistia por outras mais difíceis. Lembro de, com muito esforço, ter pronunciado “ma-ma-dei-ra”, fazendo meu professor vibrar, com uma emoção incontida. Talvez seja esse o motivo por que o homem faz tantos filmes sobre máquinas do tempo. Amanhã é dezoito e o casal da foto, hoje com quatro garotinhas e preocupações quadruplicadas, dificilmente lembrará os dezenove anos e quatro meses de existência de sua mais velha. Não haverá comemoração ou coisa parecida. Louvo então o anônimo fotógrafo, que me permite rever através desse fragmento do passado o quanto eu, mesmo inocente, era feliz. Ou era feliz por ser inocente?