quarta-feira, 19 de março de 2008

Se joga, pintosa!

Ele estava na cidade e ela às voltas com os textos. Escrevera dois nos últimos dias e queria outra opinião além da de sua mãe – mães são as menos indicadas quando se trata de crítica. Conversaram e ele comentou estar escrevendo algo sobre sua adolescência. Ela pediu para ler:

– Amanhã eu mostro. Você é profissional, preciso aprimorar.

– Deixa de bobagem, mostra agora. Nem vou ver você amanhã...

– Outro dia, então...

– Tudo bem, não precisa mais mostrar – gritaram seus hormônios.

– Não quer mesmo ver?

– Não – e a irmã dele a chutá-la por baixo da mesa.

Ela ensaiou em casa um pedido de desculpas. Não tolerava falta de educação, mesmo que fosse com ele. De madrugada escreveu novamente. Acordou e telefonou – seu texto pedia um julgamento. Marcaram para depois das três.

– Ontem você confundiu as coisas – ele começou com as farpas.

– Tem razão...

Ela respirou fundo para se desculpar, ele tomou a frente:

– Você tem sido muito estúpida. Acho que esse seu problema com seu pai...

– Você acha demais.

– Acho, sim. Acho também você uma criança, se sente mulher...

– Lê logo isso aí, por favor.

– Não, não quero mais ler – e fechou o computador.

– Agora é você quem está confundindo.

– Você é tão imatura, não sei como a namorei.

– ? ...

– Você não é namorada pra mim.

“Talvez por ser mulher”, pensou. E pediu:

– Me dá licença...

E retirou-se dali, ele a falar sozinho. Não lhe disse nada do que tinha vontade e se odiava por isso. Fora traída por seu sistema nervoso, abandonada na hora mais urgente.

Mais tarde, ela mais calma, se perguntou o que mais poderia esperar de um homem que faz luzes no cabelo, usa lentes coloridas e rebola o quadril melhor que ela. E foi escrever outro texto.

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