Ele estava na cidade e ela às voltas com os textos. Escrevera dois nos últimos dias e queria outra opinião além da de sua mãe – mães são as menos indicadas quando se trata de crítica. Conversaram e ele comentou estar escrevendo algo sobre sua adolescência. Ela pediu para ler:
– Amanhã eu mostro. Você é profissional, preciso aprimorar.
– Deixa de bobagem, mostra agora. Nem vou ver você amanhã...
– Outro dia, então...
– Tudo bem, não precisa mais mostrar – gritaram seus hormônios.
– Não quer mesmo ver?
– Não – e a irmã dele a chutá-la por baixo da mesa.
Ela ensaiou em casa um pedido de desculpas. Não tolerava falta de educação, mesmo que fosse com ele. De madrugada escreveu novamente. Acordou e telefonou – seu texto pedia um julgamento. Marcaram para depois das três.
– Ontem você confundiu as coisas – ele começou com as farpas.
– Tem razão...
Ela respirou fundo para se desculpar, ele tomou a frente:
– Você tem sido muito estúpida. Acho que esse seu problema com seu pai...
– Você acha demais.
– Acho, sim. Acho também você uma criança, se sente mulher...
– Lê logo isso aí, por favor.
– Não, não quero mais ler – e fechou o computador.
– Agora é você quem está confundindo.
– Você é tão imatura, não sei como a namorei.
– ? ...
– Você não é namorada pra mim.
“Talvez por ser mulher”, pensou. E pediu:
– Me dá licença...
E retirou-se dali, ele a falar sozinho. Não lhe disse nada do que tinha vontade e se odiava por isso. Fora traída por seu sistema nervoso, abandonada na hora mais urgente.
Mais tarde, ela mais calma, se perguntou o que mais poderia esperar de um homem que faz luzes no cabelo, usa lentes coloridas e rebola o quadril melhor que ela. E foi escrever outro texto.

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