Tentarei fazer aqui o que não consegui há poucas horas atrás, em mais uma sessão de análise: pôr para fora o que tenho há tanto tempo reprimido. Desde que me entendo gente, me empenho para que ninguém perceba o que se passa no meu fantástico mundo interior. Nem ao menos consigo olhar nos olhos de alguém por mais que alguns segundos, temendo sempre que adentrem meu universo através das portas traiçoeiras, portas que, temo eu, revelam aquilo que procuro ocultar com tanto esforço. O exercício de rasgar revistas como meio de extravasar a raiva foi frustrado: se senti realmente raiva, não consegui definir do quê, e falar se tornava um penoso desafio. Ora, eu que passei a vida empurrando o lixo para debaixo da cama e, assim, construindo uma cidade fortificada contra qualquer invasão, de repente ter que abrir os enferrujados portões e deixar sair os prisioneiros de mim mesma, foi um grande desafio que não consegui cumprir. A clássica interrogação “Como está se sentindo?” teve resposta desanimadora; foram muitas páginas rasgadas para poucas palavras e quase nenhuma nesga de raiva ou qualquer outro sentimento postos para fora. Não sei que tipo de método será preciso utilizar para que eu consiga revelar o que insisto em esconder. Tenho consciência de que não posso mais reprimir, mas não sei como. Temo o jumanji que poderia suceder se os bichos que vivem dentro de mim saíssem em disparada, atingindo pessoas a torto e a direito. Desejos sexuais e tudo que pode descender daí – todos filhos de uma besta acorrentada pelos grilhões de um realmente Super ego. Agora entendo claramente o que Paulo quis dizer quando falava de luta interior. É humanamente impossível subjugar o que há em nós de instintivo, de animal; ele sempre estará lá, latente, tal qual um vulcão ou fera adormecida, cujas atitudes não se pode prever ou facilmente controlar. É preciso um poder sobrenatural, que transcenda nossas limitações. Somente o poder da cruz, tal qual nas histórias da Transilvânia, é capaz de garantir nossa estabilidade, inclusive a psíquica. Quando as teorias do homem não dão conta, quando os métodos são frustrados, somente o inefável – mais conhecido como fé – pode nos dar a certeza de que não iremos enlouquecer e, mais do que isso, a fé pode nos dar o melhor remédio contra a tristeza profunda e suas conseqüências: a esperança em promessas que nunca irão falhar. “Se creres, verás a glória de Deus”.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Represa
Reloaded
RELOADED
Para o bem ou para o mal, recordar é viver um pouquinho novamente. Esse é o motivo por que o homem se empenhou em criar câmeras fotográficas, filmadoras, objetos que pudessem capturar ou aprisionar a imagem de momentos marcantes. Também é o mesmo motivo pelo qual as máquinas do tempo figuram tanto em histórias de ficção: o tempo é realmente um presente, e não conheço ninguém que não daria tudo para reviver uma hora, um dia, um fim de semana.
Pessoas que perderam entes queridos gostariam de ter novamente alguns instantes na companhia destes; alguém que proferiu palavras das quais se arrepende amargamente sofre por ter desperdiçado uma chance talvez única; todos que, de modo geral, tomaram decisões incorretas, impensadas e hoje pagam por isso, certamente fariam o impossível para viajar através do tempo e reparar seus erros.
Mas não é de remorso ou arrependimento que vou falar. Quero tratar de um sentimento que não dispensa ninguém, que já foi cantado e descrito de diversas formas, que todas as pessoas do mundo já experimentaram mas que só na língua portuguesa encontramos vocábulo para representá-lo. Sim, vou falar de saudade.
Sou apaixonada por fotografias e conservo em meu quarto um mural cheio delas. Enquanto escrevo, passo o olhar por cada uma e um turbilhão de lembranças me faz sentir o desejo de transcender minhas limitações humanas e poder me encontrar novamente em cada um desses momentos – um dia de férias na casa da avó, rodeada de primos e um sorriso despreocupado e infantil. Um domingo na praia com grandes amigos. Um carnaval cheio de boas surpresas como nunca haverá igual. Um passeio romântico e inusitado a uma serra aconchegante, quebrando a monotonia de todos os domingos. Um abraço apertado, da época em que tudo era só flores. Um Natal, um aniversário, a formatura do ABC, um casamento – ecos de felicidade, somente acessíveis por meio das valiosas fotografias.
Independente da idade, todos sentimos saudade de algo bom. Um bebê deve sentir saudade da tranqüilidade da vida uterina. Um vovô à beira dos cem anos certamente deve conservar algum flash da infância ou da juventude, mesmo que a memória já seja quase toda extinta. Dos casais apaixonados, então, nem se fala. É de lei carregar uma foto na carteira ou na bolsa, para quando a distância separa e a saudade aperta.
Não diria que é sempre bom sentir saudade. Diria, sim, ser importante, fundamental para valorizar a única coisa que temos – o tempo presente. Abraçar quem amamos, expressar esse amor sem medo de possíveis decepções e, se for pra se arrepender, que seja de não ter amado. Não sou adepta de frases feitas, por isso encerro com Vinícius, de cujas canções era a saudade tema constante:
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...
Se joga, pintosa!
Ele estava na cidade e ela às voltas com os textos. Escrevera dois nos últimos dias e queria outra opinião além da de sua mãe – mães são as menos indicadas quando se trata de crítica. Conversaram e ele comentou estar escrevendo algo sobre sua adolescência. Ela pediu para ler:
– Amanhã eu mostro. Você é profissional, preciso aprimorar.
– Deixa de bobagem, mostra agora. Nem vou ver você amanhã...
– Outro dia, então...
– Tudo bem, não precisa mais mostrar – gritaram seus hormônios.
– Não quer mesmo ver?
– Não – e a irmã dele a chutá-la por baixo da mesa.
Ela ensaiou em casa um pedido de desculpas. Não tolerava falta de educação, mesmo que fosse com ele. De madrugada escreveu novamente. Acordou e telefonou – seu texto pedia um julgamento. Marcaram para depois das três.
– Ontem você confundiu as coisas – ele começou com as farpas.
– Tem razão...
Ela respirou fundo para se desculpar, ele tomou a frente:
– Você tem sido muito estúpida. Acho que esse seu problema com seu pai...
– Você acha demais.
– Acho, sim. Acho também você uma criança, se sente mulher...
– Lê logo isso aí, por favor.
– Não, não quero mais ler – e fechou o computador.
– Agora é você quem está confundindo.
– Você é tão imatura, não sei como a namorei.
– ? ...
– Você não é namorada pra mim.
“Talvez por ser mulher”, pensou. E pediu:
– Me dá licença...
E retirou-se dali, ele a falar sozinho. Não lhe disse nada do que tinha vontade e se odiava por isso. Fora traída por seu sistema nervoso, abandonada na hora mais urgente.
Mais tarde, ela mais calma, se perguntou o que mais poderia esperar de um homem que faz luzes no cabelo, usa lentes coloridas e rebola o quadril melhor que ela. E foi escrever outro texto.
