quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Gracias

Esse post é somente para agradecer pelos gentis comentários que tenho recebido. Vocês são realmente muito educados, obrigado! Só uma pergunta: de onde vocês tiraram essa história de livro? É... se bem que, depois de uma que me aconteceu, nada mais me surpreende. Um certo dia em uma livraria famosa, passeando meu olhar por entre os mais vendidos, tive minha atenção despertada por um livro de capa preta e título paradoxal. Vencendo minha miopia, apertei os olhos e li o nome do autor: Bruna Surfistinha(??!!). Pensei: deve ser a fome! Sacudi um pouco a cabeça e tentei decifrar novamente. Engano meu, amigos. Aquela aberração era real e estava deixando suados dois rapazinhos perto de mim que devoravam trêmulos um exemplar não-lacrado d’O doce veneno do escorpião’ – assim se chamava a obra. Por pouco não contive minha repulsa: as aventuras sexuais de uma prostituta narradas sem a menor preocupação estética e ainda figurando entre os mais vendidos, era demais para uma apaixonada por livros como eu. Corri para as estantes onde jaziam esquecidos Veríssimo, Lygia, Clarice, e tantos outros, quase gritando “Socoooorrrro!”. Ingeri doses cavalares de contos, crônicas e poesia e voltei para casa. Pouco tempo depois, volto àquela livraria – maior atrativo de um shopping para uma desprovida de recursos e rica em curiosidade como eu. Mal havia me recuperado totalmente do trauma, e vejo na vitrine: “O que aprendi com Bruna Surfistinha – Lições de uma vida nada fácil”, agora assinado por Rachel Pacheco, a própria “Bruna”. Dessa vez balancei a cabeça apenas como censura e suspirei de desgosto. Outro dia, um amigo falou que havia baixado da internet o arquivo em áudio do primeiro livro. Após sentir náuseas por me imaginar ouvindo aquilo, fiquei a pensar no Brás Cubas, que não acreditava que mais de dez pessoas leriam suas Memórias Póstumas. Talvez nosso defunto-autor estaria prevendo a que ponto chegaríamos. Felizmente o número de leitores foi bem maior e hoje sua obra serve de refúgio contra disparates como Paulo Coelho, Dan Brown, Harry Potter, Brunas, escorpiões e tantos outros venenos letais à mente de qualquer pessoa. Mais uma vez, muito obrigado pelos comentários. Realmente, depois de comprovar que qualquer um pode publicar um livro, não vou mais duvidar das profecias de vocês. Deixo esse link para complementar o que escrevi:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65281.shtml

Abraços!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Cogito

Ontem pude comprovar mais uma vez a impotência do homem perante as leis da natureza, após ter sido derrubada por um jantar, uma sobremesa e alguns chocolates no domingo à noite. Por ter perdido a disputa entre meu estômago e essas três forças, o dia de ontem foi péssimo. Tive que adiar alguns compromissos por não poder sair de casa, doente. Tive ontem a última sessão de psicanálise do ano, as próximas só a partir de janeiro – ele também precisa de um descanso após passar o ano inteiro servindo de Muro das Lamentações. Após a consulta, vi a palestra sobre “Cura para traumas emocionais”, perfeita para mim. Mesmo tremendo por conta da febre, permaneci até o final. God is really wonderful, powerful, joyful, faithful. Tenho tentado ler o romance do Riobaldo, viajando naquela linguagem que só mesmo Guimarães Rosa seria capaz de criar. Cheia de dúvidas, pedi ajuda àquela mulher fantástica que sempre me ajuda com essas coisas e que estará orientando meu amigo Bergue com suas viagens ao mundo da Lygia Fagundes Telles. Incrível como tudo remete às Letras... poucas coisas me fazem tão bem quanto nossas conversas, que mesclam lingüística e literatura, entre outras paixões, e que nos fazem transcender esse universo fútil, banal e repressor em que vivemos. As perspectivas para as festas de fim de ano são as piores possíveis. Já estou preparando meu emocional para passar o réveillon de pijama, vendo o Show da Virada na Globo. Alguém me diz: “Até lá, as coisas podem mudar!”, outros convidam para passar o Natal na capital – minha última escolha. Eu realmente quero que as coisas mudem – um milagre. Mas gostaria mesmo de ganhar o presente pelo qual pedi, clamei tanto ontem. Deus sabe o quanto estou precisando... Se eu conseguir, certamente contarei aqui. Não morro de amores por canções de Natal, mas quero encerrar com essa:

I don't want a lot for Christmas
There is just one thing I need, and I
Don't care about the presents
Underneath the Christmas tree
I don't need to hang my stocking
There upon the fireplace
Santa Claus won't make me happy
With a toy on Christmas day

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
All I want for Christmas is you

I won't ask for much this Christmas
I won't even wish for snow, and I
I just want to keep on waiting
Underneath the mistletoe

I won't make a list and send it
To the North Pole for Saint Nick
I won't even stay up late
To hear those magic reindeer click

'Cuz I just want you here tonight
Holding on to me so tight
What more can I do
Oh, Baby all I want for Christmas is you

All the lights are shining
So brightly everywhere
And the sound of childrens'
Laughter fills the air

And everyone is singing
I hear those sleigh bells ringing
Santa won't you bring me
The one I really need
Won't you please bring my baby to me quickly

I don't want a lot for Christmas
This is all I'm asking for
I just want to see my baby
Standing right outside my door

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
all I want for Christmas is you, you ooh, baby

All I want for Christmas is you

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Absolutismo


O mês era março, o ano era 1989. Eu completava sete meses de vida e gozava todos os direitos da primogenitura, com todos os cuidados e atenções convergindo para mim. Como era de lei, a cada dezoito do mês era eu meticulosamente arrumada, penteada, enfeitada e levada a algum lugar, de preferência com flores, para ser enquadrada nas lentes de algum fotógrafo incumbido de registrar aquelas datas tão importantes para meus genitores – eu mesma não entendia nada e talvez até achasse um saco todo aquele ritual, como se pode constatar na minha expressão de tédio. Quase nada de cabelos, mas a mãe insistia em prender um lacinho, provavelmente para evitar a não rara confusão das pessoas, que me julgavam menino. Bochechas, braços e pernas rechonchudas de um bebê saudável como desejo que sejam os meus quando vierem, se Deus quiser. As mãos firmes na cadeirinha, trono do meu reinado absolutista, e a bicicleta, minha carruagem. Do meu lado a me fazer escolta, um casal jovem, inexperiente e cheios de sonhos para aquela criaturinha indefesa – minha mãe no auge de seus vinte e um anos, com um jeans desbotado, um tênis All Star e uma cara que só as mães sabem fazer; meu pai, aos vinte e cinco, razoáveis quilogramas a menos e alguns cabelos a mais, usava uma blusa com um de seus inúmeros desenhos polissêmicos, sendo que esse destacava sua enorme paixão por inglês e sua fixação por águias. Em seu rosto, um misto de orgulho e esperança naquela garotinha de olhos iguais aos seus. Ao fundo, o colégio em que ele dava aulas e onde vivi oito felizes anos. Não poderia ser outro o cenário: a frente do colégio, aquele jardim sempre bem cuidado e as janelas de vidro pelas quais desejei tantas vezes fugir para escapar da monotonia das aulas. Quando entrei ali, por volta dos quatro anos, chorava para ficar junto de meu pai e tinha febre emocional quando este viajava para lecionar. Lembro dele sentando comigo na calçada de casa para me ensinar a ler. Desenhava figuras e escrevia os nomes do lado; a maioria eram dissílabas e eu insistia por outras mais difíceis. Lembro de, com muito esforço, ter pronunciado “ma-ma-dei-ra”, fazendo meu professor vibrar, com uma emoção incontida. Talvez seja esse o motivo por que o homem faz tantos filmes sobre máquinas do tempo. Amanhã é dezoito e o casal da foto, hoje com quatro garotinhas e preocupações quadruplicadas, dificilmente lembrará os dezenove anos e quatro meses de existência de sua mais velha. Não haverá comemoração ou coisa parecida. Louvo então o anônimo fotógrafo, que me permite rever através desse fragmento do passado o quanto eu, mesmo inocente, era feliz. Ou era feliz por ser inocente?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

The Pain's Son


É domingo, domingo de dezembro, nove de dezembro. Seria apenas mais um domingo, não fosse essa angústia sufocante que me fez evadir, tal qual um poeta romântico, a outra cidade em busca de alívio. Enquanto absorvo toda a melancolia da voz de Jorge Vercilo debruçada na cama de um grande amigo, carros vêm e vão do lado de fora, na estrada, constituindo a diversão da maioria das pessoas do lugar, sempre e fielmente sentadas em suas calçadas, como a esperar que em um desses carros chegue a tecnologia mostrada pelo imprescindível e onipresente guru – a televisão. Enquanto tal “progresso” não vem, a natureza ainda os presenteia com o agradável aroma dos cajueiros, que me faz fechar os olhos e “sentir” o Ceará em que nasci. Sim, estou falando de Ocara, cidade a que tanto vinha quando na infância, acompanhando meu pai. Enquanto esse dava suas aulas, eu desenhava meu mundo em um papel com giz de cera colorido e ouvia comentários do tipo: “Como ela é grande!” ou “Desenha bem igual ao pai”. Saudade é que nem maré, canta o insistente Jorge Vercilo. Saudade desse tempo bom em que minhas maiores inquietações eram quanto ao fato de não possuir tantos brinquedos ou roupas tão bonitas e caras quanto às das coleguinhas fúteis de classe. Hoje há outras coisas a me martirizar, mas a necessidade de aceitação permanece. Enquanto escrevo, todo meu ser é tomado por um sentimento de culpa por, mais uma vez, não ter sido boa o suficiente. Como dizem, por não “saber fazer”. Levanto, dirijo-me ao espelho e o que vejo ali? Objeto de desejo para uns, mente promissora para outros, desequilibrada emocional e pedra de tropeço para alguém a fim de livrar-se do maior número de problemas que puder. “Sem querer, te perdi tentando te encontrar”... O CD já repete e a noite voa. Qualquer som é melhor que o ir e vir dos carros, que me acelera o peito ao imaginar qual deles leva (ou traz?!...) aquele que perdi graças a uma imensa estupidez. Sinceramente, ainda é impossível julgar se houve ganho ou perda. É preciso tempo, tempo, tempo que me fará ver com olhos calejados e maduros as conseqüências de tão fatídico fim de semana. Enquanto isso, curto a fossa que me é de direito, gastando sem modéstia merecidas lágrimas a cada verso de música, a cada gesto meu que faz lembrá-lo, a cada sabor ou aroma, enfim, vertendo rios de frustração ao lembrar até das pilhérias. A causa de tal paradoxo não é a recordação do que foi; o que me persegue é o subjuntivo, o que me atormenta é o birrento “E se...?”. Não almejo ter como alimento a vã esperança – recuso o lenitivo. Prefiro engolir em seco o fato de ter deixado escapar pelas mãos aquele que mais me enlevou nos últimos anos, e que me fez pensar (meiga quimera!) que não seria mais necessário ter meus passos refreados pelo medo do (des)conhecido ‘amor’. Como um menino afoito e inexperiente, mergulhei de cabeça em um rio incógnito; a sensação inicial do contato com a água foi prazerosa de tal maneira, que esqueci das pedras ocultas sob a convidativa superfície. O choque foi duro, doloroso. Saí sangrando, a água em meu corpo inteiro, aquela superfície então unida à minha. Caudaloso rio, traiçoeiro rio. Antes tivesse vencido minhas forças e me levado com você de encontro à plenitude do mar.

Quixadá/Ocara-CE, 09 e 10 de dezembro de 2007.