É domingo, domingo de dezembro, nove de dezembro. Seria apenas mais um domingo, não fosse essa angústia sufocante que me fez evadir, tal qual um poeta romântico, a outra cidade em busca de alívio. Enquanto absorvo toda a melancolia da voz de Jorge Vercilo debruçada na cama de um grande amigo, carros vêm e vão do lado de fora, na estrada, constituindo a diversão da maioria das pessoas do lugar, sempre e fielmente sentadas em suas calçadas, como a esperar que em um desses carros chegue a tecnologia mostrada pelo imprescindível e onipresente guru – a televisão. Enquanto tal “progresso” não vem, a natureza ainda os presenteia com o agradável aroma dos cajueiros, que me faz fechar os olhos e “sentir” o Ceará em que nasci. Sim, estou falando de Ocara, cidade a que tanto vinha quando na infância, acompanhando meu pai. Enquanto esse dava suas aulas, eu desenhava meu mundo em um papel com giz de cera colorido e ouvia comentários do tipo: “Como ela é grande!” ou “Desenha bem igual ao pai”. Saudade é que nem maré, canta o insistente Jorge Vercilo. Saudade desse tempo bom em que minhas maiores inquietações eram quanto ao fato de não possuir tantos brinquedos ou roupas tão bonitas e caras quanto às das coleguinhas fúteis de classe. Hoje há outras coisas a me martirizar, mas a necessidade de aceitação permanece. Enquanto escrevo, todo meu ser é tomado por um sentimento de culpa por, mais uma vez, não ter sido boa o suficiente. Como dizem, por não “saber fazer”. Levanto, dirijo-me ao espelho e o que vejo ali? Objeto de desejo para uns, mente promissora para outros, desequilibrada emocional e pedra de tropeço para alguém a fim de livrar-se do maior número de problemas que puder. “Sem querer, te perdi tentando te encontrar”... O CD já repete e a noite voa. Qualquer som é melhor que o ir e vir dos carros, que me acelera o peito ao imaginar qual deles leva (ou traz?!...) aquele que perdi graças a uma imensa estupidez. Sinceramente, ainda é impossível julgar se houve ganho ou perda. É preciso tempo, tempo, tempo que me fará ver com olhos calejados e maduros as conseqüências de tão fatídico fim de semana. Enquanto isso, curto a fossa que me é de direito, gastando sem modéstia merecidas lágrimas a cada verso de música, a cada gesto meu que faz lembrá-lo, a cada sabor ou aroma, enfim, vertendo rios de frustração ao lembrar até das pilhérias. A causa de tal paradoxo não é a recordação do que foi; o que me persegue é o subjuntivo, o que me atormenta é o birrento “E se...?”. Não almejo ter como alimento a vã esperança – recuso o lenitivo. Prefiro engolir em seco o fato de ter deixado escapar pelas mãos aquele que mais me enlevou nos últimos anos, e que me fez pensar (meiga quimera!) que não seria mais necessário ter meus passos refreados pelo medo do (des)conhecido ‘amor’. Como um menino afoito e inexperiente, mergulhei de cabeça em um rio incógnito; a sensação inicial do contato com a água foi prazerosa de tal maneira, que esqueci das pedras ocultas sob a convidativa superfície. O choque foi duro, doloroso. Saí sangrando, a água em meu corpo inteiro, aquela superfície então unida à minha. Caudaloso rio, traiçoeiro rio. Antes tivesse vencido minhas forças e me levado com você de encontro à plenitude do mar.
Quixadá/Ocara-CE, 09 e 10 de dezembro de 2007.
Quixadá/Ocara-CE, 09 e 10 de dezembro de 2007.

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