segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Absolutismo


O mês era março, o ano era 1989. Eu completava sete meses de vida e gozava todos os direitos da primogenitura, com todos os cuidados e atenções convergindo para mim. Como era de lei, a cada dezoito do mês era eu meticulosamente arrumada, penteada, enfeitada e levada a algum lugar, de preferência com flores, para ser enquadrada nas lentes de algum fotógrafo incumbido de registrar aquelas datas tão importantes para meus genitores – eu mesma não entendia nada e talvez até achasse um saco todo aquele ritual, como se pode constatar na minha expressão de tédio. Quase nada de cabelos, mas a mãe insistia em prender um lacinho, provavelmente para evitar a não rara confusão das pessoas, que me julgavam menino. Bochechas, braços e pernas rechonchudas de um bebê saudável como desejo que sejam os meus quando vierem, se Deus quiser. As mãos firmes na cadeirinha, trono do meu reinado absolutista, e a bicicleta, minha carruagem. Do meu lado a me fazer escolta, um casal jovem, inexperiente e cheios de sonhos para aquela criaturinha indefesa – minha mãe no auge de seus vinte e um anos, com um jeans desbotado, um tênis All Star e uma cara que só as mães sabem fazer; meu pai, aos vinte e cinco, razoáveis quilogramas a menos e alguns cabelos a mais, usava uma blusa com um de seus inúmeros desenhos polissêmicos, sendo que esse destacava sua enorme paixão por inglês e sua fixação por águias. Em seu rosto, um misto de orgulho e esperança naquela garotinha de olhos iguais aos seus. Ao fundo, o colégio em que ele dava aulas e onde vivi oito felizes anos. Não poderia ser outro o cenário: a frente do colégio, aquele jardim sempre bem cuidado e as janelas de vidro pelas quais desejei tantas vezes fugir para escapar da monotonia das aulas. Quando entrei ali, por volta dos quatro anos, chorava para ficar junto de meu pai e tinha febre emocional quando este viajava para lecionar. Lembro dele sentando comigo na calçada de casa para me ensinar a ler. Desenhava figuras e escrevia os nomes do lado; a maioria eram dissílabas e eu insistia por outras mais difíceis. Lembro de, com muito esforço, ter pronunciado “ma-ma-dei-ra”, fazendo meu professor vibrar, com uma emoção incontida. Talvez seja esse o motivo por que o homem faz tantos filmes sobre máquinas do tempo. Amanhã é dezoito e o casal da foto, hoje com quatro garotinhas e preocupações quadruplicadas, dificilmente lembrará os dezenove anos e quatro meses de existência de sua mais velha. Não haverá comemoração ou coisa parecida. Louvo então o anônimo fotógrafo, que me permite rever através desse fragmento do passado o quanto eu, mesmo inocente, era feliz. Ou era feliz por ser inocente?

5 comentários:

Anônimo disse...

Nossa! não sei nem o que dizer... olha muito bom hein, espero que, quando publicar seu livro, eu possa conseguir um com autógrafo. Enquanto isso vou ver os outros.

Sonhos de Ícaro disse...

Embora a infância narrada tenha sido sua, senti os aromas de meus dias pueris ao ler esse post tão poético.

Acho você muito leve, lírica e cativante nas palavras.

Achei lindos seu trono e sua carruagem!!! remete-me ao tempo em que fazia de minha despovoada infância o mundo mágico que pertence ao imaginário dos "meninos sensíveis e docces" (rsrsrsr)

Você sabe que adoro tudo o que você escreve!!!

Te adoro!!!

Unknown disse...

Nossa tia não sei o que dizer... sandy eu sou a letycia sua alunA do sexto ano ... vou deixar um coméntário adorei o texto e vou te confessar uma coisa não li todo o blog mas a tia era pra ser uma escritora... sabe te adoro você com aluna...só uma pergunta aquele casal era os seus pais? e também a prova estava fácil... te adoro tia.

Anônimo disse...

oi tia sou eu a bruna a sua aluna do sexto ano,seu blog é lindo ta de parabéns eu não sabia que aquela menina do texto da prova de português era vc,vc sabia que o pedro belo,te chamou de baleia buchuda?isso foi no dia da prova quando tu estregou a prova pra gente,mas sempre será minha tia querida! te amo!

ஜஜmelissa lok por nx zeroஜஜ disse...

eita bixinha o seu blog esta contido nele tudo oq vc fala..
pq tem muitas letras!!!